Solidão da Mulher Negra na Fantasia e Ficção Científica

Solidão da Mulher Negra na Fantasia e Ficção Científica

Dia 25 de julho é o Dia Internacional da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha. Sendo eu mesma enquadrada nessa categoria, não queria deixar essa data passar em branco, mas não poderia falar sobre qualquer coisa já que o Usina de Universos é sobre, principalmente, fantasia e ficção científica.

Fonte: https://www.geledes.org.br/hoje-na-historia-25-de-julho-dia-internacional-da-mulher-negra-latino-americana-e-caribenha/#gs.vh4hxxU

Pensei em fazer um post falando de autoras negras nos gêneros de interesse e me deparei com um probleminha… Tem pouquíssimas. E os nomes que mais apareciam no Google eu já tinha falado sobre aqui, e nenhum deles era de mulheres latinoamericanas.

A intenção inicial era escrever sobre algo positivo, mas me vi obrigada a elucidar os motivos de haver tão poucas autoras negras nesses dois gêneros. Brasileiras, em especial. E quem melhor para explicar esse sumiço? Será que mulheres negras não se interessam tanto assim por ler e escrever nesses dois gêneros por vontade própria? Ou será que tem algo maior por trás disso?

Quando se fala de Brasil, o motivo mais óbvio é o recorte de renda. Não deve ser novidade para ninguém que uma grande parcela da população negra é pobre. Ter tempo e ferramentas para a produção literária por si só já é um privilégio de classe; e publicar demanda um capital de giro que muitos brasileiros não tem, quem dirá uma parcela da população empobrecida não só pela cor, mas também pelo gênero.

Fonte: http://blog.estantevirtual.com.br/2017/02/22/infografico-descubra-cara-da-literatura-no-brasil/

Dessa parcela, sou exceção. Nasci negra, mas meu pai é branco e é ele quem garante a permanência da família na classe média. Tenho acesso à educação, e até o momento fugi estatísticas que afligem as mulheres e meninas negras como trabalho infantil, gravidez não planejada na adolescência e abandono paterno, tanto por ser classe média, educada, quanto por ser o que as pessoas conhecem por “mulata” (graças ao tal do colorismo). 

E dessas exceções, por que menos ainda dessas poucas acabam nos gêneros fantásticos?

Também espero não falar nada de surpreendente quando afirmo que fantasia e ficção científica são gêneros dominados por homens brancos, cis e hétero, tanto em autoria quanto nos personagens. Personagens femininas brancas ou homens negros já são exceção digna de nota, quem dirá tantas outras personagens pertencentes as várias outras minorias.

Não é que não seja possível ler todas essas obras, gostar delas e apreciar sua qualidade. Entretanto, a falta de representatividade gera um engessamento dos enredos e mundos passíveis de serem explorados. Ver a mesma história, com temas e conflitos similares, o tempo todo, e em geral com os mesmos problemas de misoginia, racismo, e demais opressões, cansa. Há um ponto de saturação, muito fácil de atingir se você sempre está lendo dentro dos gêneros fantásticos.

Para piorar, nem sempre buscar obras mais representativas é fácil. As duas autoras negras de ficção científica que eu conheço, tive que lê-las em inglês… Querer escrever algo quando nem se gosta de ler dentro desse leque, ou se livros mais ao gosto do freguês são inacessíveis, é improvável, imagino eu.

Outro ponto digno de nota é o contato necessário com outros autores quando se almeja escrever bem e ser publicado. Transitar em um meio predominantemente masculino, branco e hétero enquanto mulher e negra é, no mínimo, cansativo, e pode chegar até mesmo a ser perigoso. Em especial, se, como eu, a mulher em questão calhar de ser bissexual, ou quem sabe lésbica e/ou transgênero.

Eu mesma no lançamento das Crônicas das Terras Esquecidas, antologia na qual participei. A única mulher negra na plateia era minha mãe. Valeu, mãe.

Assim como não é incomum ler comentários racistas, misóginos, e contendo todos os tipos possíveis de fobia em grupos de autores voltados para a fantasia. Ler já é prejudicial o suficiente, e tentar discutir é ainda pior…

Eu mantenho minha distância desses grupos, e a minha saúde mental agradece, porém as oportunidades reduzidas para networking e receber feedback de outros autores nos meus textos têm sido um fator negativo do desenvolvimento da minha escrita e divulgação do meu escasso trabalho.

Por isso, faço questão de apoiar as autoras negras, pois existem mais dificuldades envolvidas. Falando nelas, vou encerrar o post com uma lista de links relevantes para quem quiser saber mais sobre escritoras negras além desta que vos fala.

Nota da autora: Não acho que tenho notoriedade o suficiente para alguém vir aqui e comentar MAS NEM TODO HOMEM/PESSOA BRANCA/PESSOA HÉTERO, entretanto queria deixar claro que nada contra, a maioria dos meus amigos são os três de uma vez rs. Falando sério agora, o ponto é que agir com cautela é necessário. Desde que eu comecei a ser mais ativa como autora, tanto na internet quanto na “vida real”, tenho tomado bastante cuidado e ainda assim passei por uma situação que me levou de volta para a cadeira da terapeuta e a automutilação depois de 4 anos limpa; fui forçada a me afastar bastante do meio literário da minha cidade. E o incidente nem se caracteriza como algo sério…  Atitudes escrotas e até mesmo violência naturalizadas por nossa sociedade machista e racista podem vir de qualquer pessoa, até mesmo alguém “legal” e “desconstruído”. Nunca se sabe. Quem se sentir ofendido por essa realidade provavelmente é parte do problema.

 

 

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