Os Despossuídos – Capitalismo, Idealismo e Anarquia

Os Despossuídos – Capitalismo, Idealismo e Anarquia

A Editora Aleph lançou mais cedo esse ano uma nova edição em português de Os Despossuídos, escrito por Ursula K. Le Guin. A Mão Esquerda da Escuridão é um dos meus livros favoritos, e, embora O Feiticeiro de Terramar não tenha atiçado meu interesse, tenho altas expectativas para a ficção científica de Ursula. Não fui decepcionada.

O livro fala, em sua essência, das diferenças ideológicas entre Anarres, terra natal do protagonista, e Urras, uma sociedade altamente capitalista de onde fugiram os primeiros colonizadores de Anarres, para fundar uma utopia anarquista em uma lua inóspita.

A maneira como a narrativa foi construída divide um enredo só em dois: paralelamente, acompanhamos a visita do físico Shevek à Urras, e a trajetória que o levou até lá, começando da infância.

Capa de Os Despossuídos, por Ursula K. Le Guin

Shevek é o primeiro a retornar de Anarres para Urras desde a revolução que levou à separação, e através dele, vemos as realidades das duas culturas. Fica bem claro que Urras é uma analogia à nossa sociedade atual, capitalista, e Anarres representa um ideal antônimo a todas as coisas que o capitalismo representa.

Outros temas são tratados, como, por exemplo, o funcionamento dos relacionamentos românticos divorciados da ideia de posse, e perante a ausência do casamento e obrigatoriedade de cuidar dos filhos. Trata-se também da misoginia atrelada ao capitalismo, uso da violência e alguns temas da física (embora Os Despossuídos esteja longe de ser ficção científica hard).

Em suma, várias questões são abordadas durante a trama, e em momento algum a história cai na simplicidade de transformá-las em um problema preto e branco, ou, ainda, tratar as antíteses como lados da mesma moeda.

Os Despossuídos critica, acima de tudo, a ideia de utopia. Vale a pena poucos viverem no paraíso enquanto milhões tem vidas miseráveis? Uma vez criado um sistema onde toda a desigualdade some, será que ele funcionará por tempo indeterminado sem ser corrompido pelas falhas e defeitos humanos? Seria esse sistema de fato ideal?

Ursula nos leva a pensar tudo isso em uma narrativa fluida e imersiva, envolvendo-nos também à Shevek, um estranho tanto em Anarres quanto em Urras, e sua jornada em busca da diplomacia e cooperação.

Fonte do header: https://www.flickr.com/people/24662369@N07

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *