O Conto da Aia – Distopia Teocrática

O Conto da Aia – Distopia Teocrática

Como a maioria das pessoas, soube da existência d’O Conto da Aia, escrito por Margaret Atwood, depois do lançamento da série The Handmaid’s Tale . A Rocco lançou uma edição nova dessa obra esse ano, o livro chegou anteontem aqui em casa, eu já terminei e estou aqui escrevendo sobre ele.

Capa de “O Conto da Aia”

Vamos ao fatos. A protagonista da história é Offred, uma Aia. Em Gilead, os escombros de um Estados Unidos após uma severa guerra religiosa, as mulheres férteis são escassas, e as Esposas, mulheres casadas com homens de classe social elevada, tem a seu serviço Aias, mulheres cuja única função é parir bebês.

Elas passam de casa em casa, casal em casal, após sofrerem uma pesada doutrinação em Centros de Treinamento, dando filhos para mulheres incapazes de conceber – não que não houvessem homens inférteis, este fato apenas não podia ser mencionado.

E todos vivem debaixo do calcanhar de um governo ditatorial no melhor estilo 1984, com uma pitada extra de religião. Ao invés do Grande Irmão, temos o Grande Olho, e seus Olhos, Anjos e Guardiões, vigiando o movimento de todos.

Esse calcanhar esmaga não só as mulheres (separadas em Aias, Esposas, Marthas e Econoesposas), mas também aos homens, embora de maneira não tão absoluta. É um detalhe interessante: os homens têm mais liberdade com as mulheres, inclusive algumas dessas liberdades são aprovadas pelo regime.

Em obras similares, como 1984, Nós, e Fahrenheit 451, o protagonista toma conhecimento da situação em que se encontra por meio de um personagem feminino e de alguma forma sedutor. Margaret quebra com esse padrão; Offred nunca precisou ser “trazida à luz” por personagem nenhum. Afinal de contas, ela presenciou o surgimento da ditadura teocrática que a capturou e a transformou em Aia.

A narrativa é entrecortada. As memórias de Offred nos levam de sua situação atual ao passado, tanto antes do surgimento da guerra e do totalitarismo, quanto nos seus tempos de Centro de Treinamento. O cadenciamento desses cortes retratam de maneira vívida o estado frágil, quase insano, de Offred, em sua condição de ter experimentado a liberdade e presenciado o seu cerceamento.

Tá bom, gente? Fonte: http://www.blogto.com/city/2017/01/margaret-atwood-signs-womens-march-toronto/

O impacto dessa obra é bem óbvio: vivemos em um mundo onde a liberdade da mulher é limitada. Existem mulheres na condição de Offred vivendo atualmente, sendo forçadas a servir tão somente de útero porque a alternativa é ainda menos palatável. Não são nem memórias de um passado superado, nem devaneios futuristas. Ela traz à baila a questão da fragilidade dos direitos da mulher e a redução das mulheres em objetos definidos pelo seu sistema reprodutivo no mundo ocidental.

Aí é que está a questão. O Conto da Aia é uma obra no nível e estilo das distopias clássicas. Quem leu algumas das que mencionei é capaz de escrever uma lista quilométrica de semelhanças. A qualidade literária é a mesma. A primeira edição foi lançada em 1985; não é como se fosse alguma novidade dos anos 2000. Foi preciso uma série de televisão para eu chegar a saber dela, e não é de hoje que leio dentro do gênero.

Isso para mim é um claro reflexo da atitude dentro da literatura e outros meios de criação de conteúdo de que os problemas dos homens são universais, e os problemas das mulheres… Ninguém quer saber deles (já tenho um post guardadinho sobre isso, aguardem).

Assim como em A Rainha do Ignoto, senti a falta do recorte de etnia. A narrativa ainda toca levemente nas vidas de mulheres lésbicas e de classe social baixa, entretanto não há nenhuma menção de como seriam tratadas as mulheres negras, nativas, e imigrantes, por exemplo. A interssecionalidade ainda é assunto pouco abordado, mesmo nos dias atuais.

Em suma, O Conto da Aia é uma leitura intrigante, se bastante perturbadora, pessimista e incrivelmente necessária para todos os gêneros.

Nota da Autora: Para quem mora em Fortaleza (e eu sei que a maioria das pessoas que leem o Usina são de Fortaleza porque me conhecem e são contratualmente obrigadas a acompanhar meu site rs), dia 26/08 vai ter um clube de leitura, o Leia Mulheres, na Livraria Cultura sobre O Conto da Aia.

Nota da Autora 2: Não assisti a série, e vi procurando a imagem de destaque para esse post que colocaram atoras negras para fazer algumas das aias. É um gesto legal, entretanto é um fato que a cultura patriarcalista atual afeta as mulheres não brancas de maneira mais severa… Não sei se apenas colocar uns rostos negros conta como discutir a questão.

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