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O Protótipo

O Protótipo

Em um mundo pós-apocalíptico, Rogério tinha o emprego dos sonhos. Não porque fosse um trabalho preguiçoso, pelo contrário: testar androides sexuais oito horas por dia, cinco dias por semana, exigia estamina e uma disposição que poucos tinham a oferecer.

Sendo o sexo entre homens uma ideia asquerosa, restavam apenas as androides, imitações tacanhas de algo que não existia mais.

E era a parte tacanha da coisa que deveria ser superada com o mais novo objeto de teste de Rogério, Vivian. Seu trabalho não consistia apenas de entrar na sala e mandar ver; tal como um degustador de vinhos, ele deveria analisar com fino trato todas as características, até mesmo aquelas tão discretas que passariam despercebidas pelo consumidor comum.

Vivian, ele sabia, era um protótipo com a fuselagem da mais leve liga metálica coberta por uma imitação fidedigna da pele humana, feita de material plástico de fácil limpeza. Contava ainda com juntas flexíveis, caixa de voz com dezessete opções de entonação e rosto animatrônico capaz de mimetizar 97,8% das expressões faciais humanas.

Para além disso, era a única androide imbuída de inteligência artificial até o momento. As inteligências artificiais já eram cotidianas e exerciam várias funções, por que não mais uma…?

Rogério mal podia esperar para colocar seus dedos gorduchos no protótipo. Se nem precisava dessas frescuras todas…

Quando entrou na sala de testes – um pouco suado, é verdade, por causa da antecipação – Vivian, sentada na borda de cama de pernas e braços cruzados, virou o rosto em sua direção e o estudou da cabeça aos pés, uma expressão desaprovadora surgindo aos poucos.

De repente, ele passou a sentir mais o tecido da camisa grudado nas axilas peludas.

Vivian, mesmo assim, deitou-se e abriu as pernas como era o esperado. Rogério, já um pouco apreensivo, removeu suas roupas e deitou em cima da androide, suas mãos já apalpando, gulosas, os apêndices do tórax. Seios, era o termo técnico. Ele não sabia de onde vinha o nome.

Quando ele tentou penetrá-la, veio o aviso:

Cuidado. Não há lubrificação suficiente.

Rogério pausou, e se afastou um pouco.

Como assim? Tem alguma coisa quebrada? Pouco fluido?

O sistema está perfeitamente funcional, porém desativado. – disse-lhe ela.

Será que é melhor eu chamar um técnico?

O sistema deve ser ativado pelo próprio usuário antes do uso.

A esse ponto, o sommelier de androides estava sentado nos calcanhares, passando a mãos nos cabelos ralos.

E como é que eu faço isso?

Você pode começar visitando o dentista para discutir sua halitose. Ela pode ser indicativo de problemas de saúde. A remoção parcial de pelos corporais também facilitará o ativamento do sistema, assim como uma cirurgia de reconstrução facial. A curto prazo, eu sugeriria um banho e uma lista de tópicos interessantes para conversação.

Rogério brochou.

Vivian foi posteriormente declarada inutilizável por vários outros testadores e desmontada.

Nota da Autora: Escrevi esse conto (crônica?) rapidinho. Ainda estou sem revisora, se tiver alguma coisa errada vocês nem notem.

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