Saindo da Zona #1

Saindo da Zona #1

Nem só de fantasia e ficção científica vive uma mulher. Para escrever bem, é interessante não ficar só na mesma coisa e buscar ler e escrever além do seu(s) gênero(s) e estilos de preferência; ou seja, ir além da zona de conforto. Por isso, decidi inaugurar uma série de posts falando das minhas leituras preferidas que não se encaixam muito bem no escopo do Usina.

Como não deixa de ser uma fuga do assunto, vou juntar dois a quatro livros por vez, para não tomar muito espaço das postagens regulares. Indo direto ao que interessa:

Outros Jeitos de Usar a Boca

Capa de “Outros Jeitos de Usar a Boca”

Cheguei bem tarde no bonde com esse post. A poeta Rupi Kaur já é bem famosa pela internet por postar seus poemas no Instagram, e lançou um livro chamado Milk and Honey. A Editora Planeta nos fez o favor de traduzir a obra e dar um título bem mais legal, Outros Jeitos de Usar a Boca.

Os poemas da Rupi são crus, e há quem diga que são deselegantes. Vejo neles uma característica que noto em boa parte das obras nos gêneros fantásticos: a despreocupação com a estética e a linguagem. As palavras são meras ferramentas para transmitir a experiência feminina com o amor e a violência, dois conceitos interligados quando se fala de relações românticas heterossexuais.

A simplicidade e a forma direta de Rupi torna a leitura bem fácil, e o impacto de seus poemas vem justamente da franqueza com que ela expõe seus sentimentos e experiências. Para quem não tem paciência para ler muito nas entrelinhas e ter que desvendar linguagem rebuscada, assim como eu, é uma excelente obra.

Pequenas Grandes Mentiras

Esse livro foi escrito por Liane Moriarty, e trazido ao Brasil pela Editora Intrínseca, em 2014, e a editora lançou uma segunda edição após o lançamento da série, de mesmo nome.

Pequenas Grandes Mentiras já começa com um quê de drama policial, com um assassinato misterioso. Acompanhando a vida cotidiana de três mulheres, descobrimos aos poucos os eventos que culminaram nessa morte.

Temos Celeste, uma mulher perfeita, rica, bonita… E um marido não tão perfeito assim. Madeline, por sua vez, tem que lidar com a presença constante do ex-marido que a abandonou para cuidar sozinha de sua filha mais velha, e Jane, mãe solteira, foge de eventos traumáticos do passado que resultaram em Ziggy, seu filho.

Imagem promocional da série. Celeste está no lado esquerdo, Madeline ao centro e Jane, no lado direito.

Sob o disfarce de uma leitura divertida sobre um crime, trata-se da violência contra a mulher e as diversas formas em que ela ocorre (sob uma óptica pouco interssecional, como sempre, né…).

Sobre esse livro, posso apenas dizer que eu fui pega de surpresa pela narrativa, algo bastante incomum.

Quinze Dias

Capa de “Quinze Dias”

Quinze Dias, escrito por Victor Martins, foi publicado pela GloboAlt, e é um romance adolescente típico… Se não fosse protagonizado por um garoto gordo e gay. Felipe, o supracitado garoto gordo e gay, deve passar pelo suplício de hospedar o crush, o vizinho Caio, em sua casa por quinze duas durantes as férias da escola.

Tal como Pequenas Grandes Mentiras e Outros Jeitos de Usar a Boca, Quinze Dias está longe de ser uma obra complexa, e a simplicidade é uma ferramenta poderosa para explorar de maneira leve e compreensível questões como homofobia, gordofobia e baixa autoestima.

E, finalmente, chegou o dia em que eu digo que interssecionalidade foi um tema abordado em algum lugar. Para além de Felipe e Caio, temos também Melissa, uma personagem assumidamente bissexual e Beca, lésbica, negra e gorda. Tudo isso enrolado em uma trama fofíssima que agradou até o meu coração de pedra.

É um grande exemplo de que é possível ter representatividade e falar de várias questões nesse leque sem deixar que isso dite o tom da obra. Quinze Dias continua sendo um romance água-com-açúcar, tão doce ao ponto de me ter me dado uma cárie, sobre a ansiedade das primeiras experiências e as novidades da primeira paixão.

Nota da Autora: Daí vocês notam que eu nem gosto de ler coisa complicada, né? Vou ver se no próximo Saindo da Zona, só Jeová para responder quando é que isso vai ser, eu trago umas leituras mais intelectuais. Não esperem de pé.

Nota da Autora 2: Gostei tanto da Rupi que tatuei um poema dela. Não sai bem em foto porque coloquei uma fonte minúscula 🙁

 

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