As Boas Damas – Reinventando Sherlock Holmes

As Boas Damas – Reinventando Sherlock Holmes

Mais um título para o rol de autores nacionais, As Boas Damas, lançado pela Dame Blanche em formato digital, foi escrito por Clara Madrigano, uma das autoras nacionais que mais admiro. Por isso, quando foi anunciado o (re)lançamento d’As Boas Damas, corri logo para comprar na pré-venda, baixei assim que liberou e terminei de ler pouquíssimas horas depois.

E sobre o que é, afinal, essa novela?

Um mix de mistério, suspense, fantasia e terror, acompanhamos Sherlock Holmes e sua protegida, Annabelle Watson (sim, filha do fiel companheiro  Watson, já falecido quando a história começa), ao resolver um enigma que não pode ser inteiramente explicado pela lógica mundana.

Talvez o fato de esta obra ser uma modificação de uma obra original, algo conhecido como fanfiction, cause certo estranhamento, em especial para quem não tem o costume de ler ou escrever fanfic. Não é fácil pegar uma obra consagrada e popular, colocar o seu dedinho nela, e acabar com outra coisa que não despedace a suspensão de descrença, mas fiquem tranquilos, Clara Madrigano acerta no alvo em As Boas Damas.

Capa da nova edição de As Boas Damas

O enredo, apesar de bastante diferente da premissa dos enredos dos contos e romances originais do Arthur Conan Doyle, consegue preservar o âmago de uma boa história de Sherlock Holmes: um mistério indesvendável. Uma mulher rica e aparentemente insana desafia Annabelle e Sherlock a desvendarem como ela matou seu filho, que, até onde se sabia, havia morrido por um afogamento acidental.

O protagonismo de Annabelle é um ar refrescante na história, pois de várias maneiras, afasta a trama do clichê do protagonista masculino inteligente e escroto com habilidades quase sobrehumanas. Vemos um Sherlock velho, fragilizado, vulnerável, o que o torna um personagem mais verossímil; Annabelle, por sua vez, toma as rédeas da história e a leva adiante com sua própria astúcia.

A estrela de As Boas Damas é o relacionamento entre Annabelle e Sherlock. Outro clichê muito recorrente em fanfictions no geral são personagens masculinos conhecidos por serem escrotos e distantes sendo humanizados por meio de um relacionamento, em geral romântico, com personagens femininos, cuja função é amar o escroto em questão até que ele deixe de sê-lo.

E quase nada disso acontece. Primeiramente que a relação entre os dois é de pai e filha, o que é um grande alívio, e, em segundo plano, embora Annabelle humanize Sherlock, essa não é a função dela na história, muito menos ela teve que de fato fazer algo para isso acontecer fora existir e ser posta sob os cuidados do excêntrico detetive pelas mãos do destino.

Em suma, As Boas Damas é uma releitura de um universo muito querido, com um dos personagens mais icônicos da literatura, que consegue andar sobre a fina linha entre ser original e manter a “alma” da obra em que é inspirada, é escrito por uma autora brasileira, a capa é belíssima, e de quebra é exemplo de protagonismo feminino feito certo.

Nota da autora: Eu e a obra concordamos que o Sherlock Holmes é gay.

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