A Força Feminina em Os Últimos Jedi

Que não reste nenhuma dúvida que o filme Os Últimos Jedi, oitavo das trilogias de filmes que acompanham a história da família Skywalker, é um filme icônico. É a continuação de um legado épico, que está quebrando diversas tradições no meio cinematográfico.

Se o sétimo filme, O Despertar da Força, foi inovador por trazer personagens de cor, e por finalmente trazer uma personagem feminina no papel do herói predestinado, Os Últimos Jedi continua a desfazer o legado misógino da indústria de entretenimento e da ficção científica, pois o forte desse filme são suas personagens femininas – e seus arcos narrativos. Algumas tradições, porém, permaneceram intocadas.

SPOILERS A SEGUIR

Pôster de “Os Últimos Jedi”

Comecemos por Rey. Em seu arco, um dos pontos mais importantes é seu relacionamento com Kylo Ren. Confesso que fiquei preocupada, sentadinha na minha cadeira de cinema, quando a conexão mental entre eles começou a ser explorada. Pensei eu que Rey seria reduzida apenas ao catalisador da redenção de Kylo (o verdadeiro salvador) ao se envolver romanticamente com ele.

O arco de redenção de um personagem masculino, violento, de alguma forma maligno, ou tudo isso junto, por meio do amor romântico de uma mulher está meio manjado, não é mesmo? Além de ser problemático para caramba. E Rey acaba ensinando uma lição importante para todas nós.

Rey não está nem aí para o seu passado trágico.

Amor e compreensão não podem reformar um homem ruim. Pode-se até tentar, e o resultado do processo só vai ser mágoa e abuso. Foi o que aconteceu a Rey quando ela tentou alcançar Kylo. Durante o filme, inclusive, ele diz uma fala clássica de abuso psicológico. “Você não é nada. Mas não para mim”, uma forma de diminuir Rey para fazê-la aceitar se unir a ele.

Rey termina fechando a porta na cara de Kylo Ren. Deu para notar que não é o fim definitivo desse subenredo, embora devesse ter sido.

Falemos agora da Almirante Holdo. A Almirante é quem toma conta dos Rebeldes enquanto Leia está se recuperando de se salvar da morte no espaço (um feito e tanto), para o desgosto de Poe. Apesar de ser um filme fictício rolando num lugar onde o som viaja no vácuo, achei um retrato fidedigno do que acontece às mulheres em posição de liderança. Poe, nessa peça, interpreta o papel de macho escroto com maestria.

Almirante Holdo: bela e bem mais capaz que você. Fonte: https://www.space.ca/star-wars-the-last-jedi-vice-admiral-holdo/

Começa pelo comentário na aparência da Almirante quando ela se anuncia. Ela é, sem dúvida, uma mulher feminina. Poe diz: “Ela não é o que eu esperava”. E por que uma heroína de guerra, segundo em comando para Leia, não poderia ser feminina?

Poe a subestima, desobedece, e ainda tenta explicar para sua superior como funcionam as coisas. E Holdo? Sabia o que estava fazendo o tempo todo. Seu plano era sólido e coerente, enquanto os planos de Poe, quase todos, falharam de maneira catastrófica. Para ele, só tinha valia os planos de guerra violentos, na ofensiva. Ele acaba causando a destruição uma parcela vital da frota rebelde.

A história de Holdo não tem um final feliz. Seu fim é se sacrificando para desfazer os erros cometidos por Poe (e Finn). O piloto continua ficando vivo para aprender com seus erros. É um desenvolvimento de personagem interessante, porém não fiquei feliz que tenha acontecido às custas da vida de duas mulheres da saga. Holdo, e Paige, irmã de Rose.

E falando nela, Rose é um personagem que se destaca no filme por auxiliar Finn e Poe em seus planos. Como as demais mulheres dessa trilogia de Star Wars, ela é proativa, capaz, inteligente, e carrega o arco narrativo de Finn nas costas ao acompanhá-lo durante quase todo o filme. É uma visão rara ter uma atriz asiática em um papel grande desses.

O que me pareceu, porém, é que ela só foi inserida na trama para desfazer a ideia de que Poe e Finn ficariam juntos. E também que Rey e Finn ficariam juntos. Isso me traz de volta aos parágrafos iniciais, inclusive; um arco romântico entre Rey e Finn descartaria a possibilidade de um envolvimento entre Rey e Kylo. São motivos muito infelizes para inserir uma personagem que nem a Rose.

Finn teria morrido umas sete vezes no filme se não fosse por ela.

Pelo menos sua contribuição vai além disso. Rose representa, em um filme cheio de heróis de guerra, a coragem das pessoas comuns da galáxia. Ela é um símbolo de esperança maior do que Rey, inclusive. Rey, sozinha, é muito poderosa, mas precisará da ajuda de uma multidão de pessoas que nem Rose para destruir a ameaça do Império.

Em suma, o saldo foi mais positivo que negativo para Os Últimos Jedi, se tratando de personagens femininas. A narrativa tem suas escorregadas, algumas sérias, outras nem tanto, e só podemos torcer pelo melhor quando se trata do desfecho dos arcos dessas personagens.

Eu já estou contando os dias para a próxima estreia. E vocês?

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