A Arte de Agressores

Então aquele ator, músico, escritor que você gosta foi acusado de assédio, abuso, ou agressão. Isso tem, ainda bem, se tornado algo comum com essa nova onda de vítimas, mulheres em sua maioria, denunciando abusos sofridos na indústria do entretenimento.

Um dos acontecimentos mais recentes que gerou bastante polêmica foi o caso de um dos atores do elenco de Animais Fantásticos e Onde Encontrá-los, e o subsequente pronunciamento da J.K. Rowling em relação à permanência do ator no filme, enquanto que alguns estúdios demitiram atores e regravaram cenas. A pergunta principal, para a maioria das pessoas, é: até que ponto pode-se separar o artista de sua arte?

Talvez a problemática mais importante seja outra.

Comecemos com o fato de que denúncias falsas são muito incomuns. É do interesse da sociedade em que vivemos tirar de proporção esses raros casos para pôr em xeque as vozes das vítimas, em geral mulheres, em favor da “inocência” dos agressores, em geral homens.

Escutar uma denúncia e de imediato supor que a vítima está falsamente acusando é ir contra o bom senso. Uma boa parte dos abusos não deixa para trás provas concretas – algo que abusadores estão bem cientes – e denunciar, ao contrário do que as pessoas pensam, não é algo fácil. Denunciar abusos sempre vem a duros custos para quem se pronuncia.

Minha experiência pessoal com isso é que denunciar resulta apenas em isolamento, pois a verdade é que ninguém liga muito para a segurança das vítimas, passadas e futuras. Quem denuncia é posto como culpado por causar confusão. Não se encontra apoio da parte de pessoas que conhecem o agressor. A regra é a punição da vítima.

Apesar dessa onda de denúncias, o silêncio é a regra, e não exceção.

Vamos ao segundo fato. A arte confere notoriedade para quem a produz, e essa notoriedade nas mãos de um agressor lhe dá condições de continuar abusando e silenciando suas vítimas, em especial se estamos falando de artistas cujo pagamento chega a casa dos milhões.

A fama, popularidade e respeito dentre seus pares que a arte pode trazer cria um desequilíbrio de forças, e, no geral, a vítima sai perdendo, sendo silenciada, pois o agressor encontra-se em posição direta de poder ou influência sobre ela (ou ele). Ninguém vai demitir um diretor experiente ou um ator famoso em nome da segurança de uma atriz novata, por exemplo.

E, claro, isso na mão de uma pessoa que já abusou, assediou ou agrediu, e já conseguiu se safar, significa que, cedo ou tarde, ela vai continuar a fazer.

O terceiro ponto é que a arte é única, mas não insubstituível. Alguma outra pessoa pode atuar naquele papel, publicar sobre aquele tema, ou lançar aquela música. Seria a mesma coisa? Claro que não, entretanto boa arte seria feita da mesma maneira, só que com o bônus de não facilitar que um agressor continue a agredir.

E impedir alguém de ser reconhecido por sua produção não é o real problema aqui, pois, afinal, muitas das vítimas são impedidas de crescer profissionalmente na indústria de entretenimento, ou literária, ou musical, por causa disso. Quem liga para a arte dessas pessoas? As vítimas aprendem a seguir em frente, tendo suas carreiras na área prejudicadas. Por que os agressores não podem fazer o mesmo, já que eles são os culpados da situação?

Desencorajar o consumo de mídia produzida por agressores não é ditadura, gente. Calma.

 

Temos ainda a questão de que inviabilizar alguém de ter seu trabalho consumido não significa inviabilizar essa pessoa de seguir sua vida e pagar suas contas. Um pedófilo sendo impedido de trabalhar com crianças não o impede de trabalhar em qualquer outra coisa que não envolva estar na posição de facilmente agredir; a lógica é essa.

A grande questão é que em raros casos há justiça para as vítimas, e os agressores quase nunca são de fato ressocializados. A justiça é muito falha. E boicotar artistas não é sobre linchar ou fazer justiça com as próprias mãos, é apenas evitar o surgimento de mais vítimas e proteger as existentes, e permitir que essas vítimas consigam continuar sua carreira na área, ou sua vida em geral, sem serem punidas pela coragem de se pronunciar.

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