Círculos do Inferno Cotidiano: Purgatório Cristão

Suponha que uma pessoa, durante sua vida, não tenha sido nem tão extraordinariamente boa, nem irremediavelmente má. Ou seja, uma pessoa como a maioria das outras. Chegada a sua hora, ela não irá para um dos círculos sofrer pela eternidade – tampouco ascenderá aos céus, não com uma lista, maior ou menor, de pecados a serem purgados.

O recém-falecido se verá numa sala. Uma sala normal. A cor das paredes e o estilo da mesa e das duas cadeiras ali dispostas variam. A sala sempre tem uma porta, e o ar-condicionado faz um barulho irritante.

Atrás da mesa, um rapaz espera, pacientemente, que a pessoa sente. Alguns tentam abrir a porta – trancada, óbvio –, outros perguntam onde estão, sem saber nem que estão mortos. Ainda há aqueles que, mediante tamanho absurdo, apenas se acomodam na cadeira livre e suspiram.

Todos acabam por sentar, e o rapaz puxa uma caixa com um quebra-cabeça. O bom samaritano, que, vez ou outra, “esqueceu” de devolver o troco, se depara com um jogo de 6500 peças. Já a pessoa de bem, que foi conivente com o seu amigo que espancou a mulher, verá 100000 peças a serem montadas. Por aí vai.

O rapaz não é muito de falar. Em silêncio, ele espalha as peças pela mesa e se recosta na cadeira.

É o tempo que o visitante tem para perceber duas coisas: a primeira é que o quebra-cabeça deve ser montado, não importa a eternidade que dure; a segunda é que o moço é familiar. Cabelo longo, barba, camisa vermelha, umas feridas esquisitas nas palmas das mãos…

Sim, eu sou Jesus. – ele dirá, entediado. – E este é o purgatório cristão. Aquela é a porta para o paraíso, mas você ainda não pode passar por ela.

Muitos riem. Só montar um jogo de criança? É só começar pelas bordas, procurar por linhas, e tudo bem. Exceto que a figura a ser montada não tem linhas óbvias. As peças somem e reaparecem.

Sem ter o que fazer, o visitante começa a conversar com Jesus Cristo. Não, ele não sabe para onde vão os que não são cristãos e nem pode dizer o que há além da porta. E sim, ele já pediu várias vezes pelo menos uma máquina de café e nada havia acontecido.

Logo a conversa se torna mais pessoal. O pecador fala sobra sua vida, sua morte, e, por fim, começa a perceber – se é que já não havia percebido – porque está ali, ao invés de estar no paraíso ou no inferno.

Jesus, muito eloquente, apenas concorda com a cabeça. O que é justamente o que pecador precisa para ele mesmo após certo tempo de monólogo, se arrepender dos erros cometidos na vida passada, e prometer fazer melhor na próxima. Enquanto isso, os dois vão montando o quebra-cabeça.

Então ouve-se um suave clique, quando a última pecinha é encaixada. O clique é a maçaneta da porta destrancando. O visitante pode seguir em frente. Já Jesus, que fica na sala, suspira.

O próximo se materializa no ambiente.

Nota da autora: A crônica anterior dessa série pode ser lida aqui.

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